- Cassiano, meu querido, por que esse olhar vago sobre a fumaça?
- Minha mente. Ela não me deixa em paz.
- Paz? como assim?
- Ela não se cala. Nem um minuto. O tempo todo indagando sobre as existências, das mais variadas possíveis. Essa janela, vê? Essa janela com curvas nas grades. E essa fumaça, até, se fundindo com as curvas das grades, essas coisas. Essas coisas causam indagações na minha cabeça.
- Não se pergunte tanto. Simplesmente faça as coisas. E sinta.
- Simplesmente? Bem, não é bem assim que as coisas funcionam. Pelo menos para mim. E ainda você está errado... fazer, sentir? É isso o que eu faço demasiadamente. E são essas que causam indagações, que criam a guerra.
- Então simplesmente viva.
- E não é isso o que eu faço o tempo todo? Anh.E talvez. Talvez esse seja o problema: vivo de mais. Procuro viver cada momento, por mais insignificante que seja. Vivo agora, por exemplo, a massa de fumaça com as curvas das grades da janela.
- Isso não é para ser vivido, Cassiano.
- O que é, então?
- Sua vida. Ela que é para ser vivida.
- Minha vida? Por acaso a fumaça e as curvas das grades da janela não são parte da minha vida?
- Elas são parte da sua vida. Não a sua vida.
- Bem sei. Mas o que compõe uma vida não são esses fragmentos de massas existentes?
- Mas essas massas fragmentadas não têm importância nenhuma para ninguém.
- Para mim, elas têm.
- A fumaça e as curvas das grades da janela têm importância para você, Cassiano?
- Eu não conseguiria viver sem elas. Não consigo imaginar minha vida sem elas. É disso que minha vida é feita; dessas massas de existências insignificantes que sinto tanto, tanto que, às vezes, chega a doer.
- Pare de falar asneiras, Cassiano.
- Mas tudo me dói! A vida me dói e não me deixa em paz! e, às vezes, acho que ela não vai mais caber dentro de mim.
Depois de um tempo, de um curto tempo, Cassiano sufocou o recinto com suas asneiras e, depois de mais um pouco de tempo, não muito, esmagou com suas indagações seu melhor amigo. Não demorou muito também para suas indagações esmaga-lo também. Primeiro lhe faltou ar. Depois foi esmagado por um peso que ele julgou ser satisfatório.
Mas a fumaça e as curvas das grades da janela não. Continuaram lá.